terça-feira, 1 de outubro de 2013

Intempéries

"Era para ter sido uma vez em que ela apenas chorou e não procurou válvulas de escape. Era para ter sido uma vez em que o rio de sangue percorresse seu caminho usual e não inundasse um pequeno córrego feito pelas intempéries do tempo. Esse córrego era apenas um córrego, mas era visto como um rio. E como um rio que se preze, tinha seus afluentes. Tudo - ou pelo menos pouco - foi feito para que não fossem formados novos afluentes. A saúde da terra ainda era necessária, ainda que pouco importasse. No fundo importava.
Junto com as inundações veio a chuva. Mas não chovia sangue. Chovia um líquido salgado, travesso. Esse líquido a impedia de enxergar claramente a formação dos córregos, mas isso não impedia as inundações. Apesar de tudo isso, ela conseguia entender que os problemas internos do solo estavam causando a chuva e também os córregos e seus afluentes. Até que um dia veio a seca. Os rios de sangue pararam de banhar os estreitos córregos, deixando marcas por onde passaram. Ela começou a tentar controlar o subsolo para que aquilo não acontecesse mais. Mas era difícil, ela não sabia controlar nada. Então, de vez em quando o solo era prejudicado. A seca se prolongou, e as marcas trataram de sumir. Mas de vez em quando insistiam em voltar. E todo o ciclo recomeçava e ela tratava de suportar as intempéries em seu pequeno lugar." (
Isabela Andrade)

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