terça-feira, 15 de outubro de 2013

Sem ninguém

E a gente só aprende depois que se machuca... A gente só percebe o quanto afasta as pessoas quando faz a merda e se vê sem saber pra onde ir... E aí chora... Ah não, não chora... Porque o choro tá engasgado, não sai. Sem ninguém. Sem saber pra onde ir. Chora sim. Ainda existe lágrima de sangue. E depois vira idiota, cheia de marcas. Porque deixou a fraqueza ser forte. Coloca a máscara todo dia. Impostora. Eu sou uma impostora. Eu sou uma marginal. Eu sou uma estúpida, idiota. Que não sabe como veio parar aqui. Dói, dói pra caramba. Mas só dói quando não tem ninguém. Quando foge ao controle. Quando chega o desespero. E aí? Faz o que? Aí se entrega... Pra ser julgado... Pra dizerem que você desistiu e se tornou um lixo... E você confiou pra caramba, né? Se doou pra caramba achando que ia receber também... Ilusões... Sem ninguém... E acham que você está brincando quando diz que desistiu... Depois acreditam... Dói tanto que a vontade é de parar de adiar... Acabar com essa história... A confusão te deixa sem saber o que fazer... E aí você finalmente chora com os olhos... E não para mais... As olheiras? São só cansaço... Não é nada. Eu to bem. Por fora eu to sempre bem. Por dentro eu já desisti. Admito, sou fraca. Admito, não aguento mais. Ninguém aguenta mais. Ninguém me aguenta mais.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Intempéries

"Era para ter sido uma vez em que ela apenas chorou e não procurou válvulas de escape. Era para ter sido uma vez em que o rio de sangue percorresse seu caminho usual e não inundasse um pequeno córrego feito pelas intempéries do tempo. Esse córrego era apenas um córrego, mas era visto como um rio. E como um rio que se preze, tinha seus afluentes. Tudo - ou pelo menos pouco - foi feito para que não fossem formados novos afluentes. A saúde da terra ainda era necessária, ainda que pouco importasse. No fundo importava.
Junto com as inundações veio a chuva. Mas não chovia sangue. Chovia um líquido salgado, travesso. Esse líquido a impedia de enxergar claramente a formação dos córregos, mas isso não impedia as inundações. Apesar de tudo isso, ela conseguia entender que os problemas internos do solo estavam causando a chuva e também os córregos e seus afluentes. Até que um dia veio a seca. Os rios de sangue pararam de banhar os estreitos córregos, deixando marcas por onde passaram. Ela começou a tentar controlar o subsolo para que aquilo não acontecesse mais. Mas era difícil, ela não sabia controlar nada. Então, de vez em quando o solo era prejudicado. A seca se prolongou, e as marcas trataram de sumir. Mas de vez em quando insistiam em voltar. E todo o ciclo recomeçava e ela tratava de suportar as intempéries em seu pequeno lugar." (
Isabela Andrade)